O que você come na gravidez já molda os gostos do seu filho – como a maternidade mudou minha relação com a comida

Por Luciane Macias

Quando eu tinha 21 anos e estava grávida pela primeira vez, folheei uma enciclopédia para gestantes e li algo que mudou tudo: o que a mãe come durante a gravidez não influencia apenas a saúde do bebê, influencia também os sabores que ele vai preferir pelo resto da vida.Aquilo virou uma chave dentro de mim.

Eu havia perdido minha mãe aos 15 anos. Não tivemos tempo para conversar sobre maternidade, sobre amamentação, sobre como cuidar de um bebê. Cheguei à gravidez com uma responsabilidade enorme e muitas perguntas sem resposta. Mas naquele momento, lendo aquelas páginas, entendi que tinha um papel ativo e concreto a desempenhar, bem antes do parto.

Parei de comer por mim. Passei a comer pelo meu bebê.

A ciência por trás disso

As experiências sensoriais com alimentos começam antes mesmo do nascimento. Os sistemas responsáveis pelo olfato e pelo paladar já estão funcionais no útero, e a exposição ao ambiente intrauterino pode causar efeitos permanentes no desenvolvimento, fenômeno conhecido na literatura científica como “programação” metabólica, considerado fator de risco importante para doenças crônicas na vida adulta.

Estudos publicados na revista Pediatrics demonstraram que bebês cujas mães consumiram suco de cenoura durante a gestação ou amamentação mostraram maior aceitação desse sabor ao serem introduzidos a alimentos sólidos. O mesmo foi observado com alho, anis e outros alimentos de sabor marcante. (Mennella et al., 2001)

Tanto o líquido amniótico quanto o leite materno refletem, em graus variados, a composição da dieta materna. A exposição repetida a esses sabores aumenta a aceitação dos alimentos pelo bebê. Mães que se alimentaram de forma variada durante a gestação tendem a ter filhos menos seletivos e mais dispostos a experimentar novos alimentos na infância.

Um estudo de coorte com 1.160 pares mãe-bebê mostrou ainda que o aleitamento materno nos primeiros seis meses está associado a comportamentos alimentares mais tranquilos, menos pressão para comer e maior autorregulação do apetite pela criança. (De Cosmi, Scaglioni & Agostoni, 2017)

O que isso significa na prática

Não se trata de perfeição mas sim entender que cada refeição é também uma conversa silenciosa com o bebê, uma introdução aos sabores do mundo, e isso muda a perspectiva. Pode haver um momento para aquele doce que você deseja mas isso deve ser uma excessão e não uma regra.

Comer brócolis, temperos frescos, legumes variados durante a gravidez pode ser a primeira apresentação do seu filho a esses sabores. E essa familiaridade precoce tende a facilitar a aceitação desses alimentos lá na frente, quando chegar a hora do desmame.

As preferências e a rejeição por alguns sabores podem ser modificadas justamente por meio dessa exposição repetida: no líquido amniótico, no leite materno e, depois, nos alimentos introduzidos na fase de complementação alimentar.

Por que eu conto isso

Eu fui uma mãe jovem, sem a orientação nem a presença da minha própria mãe desde os 15 anos, vivendo sozinha desde então e me alimentando no modo sobrevivência, sem me importar com valores nutricionais, apenas calóricos. Quando engravidei me preocupei em me informar sobre tudo o que influenciaria na formação do meu bebê. Busquei informações baseadas em ciência, e encontrei. Li muito sobre a influência da alimentação na formação do feto, desde o cérebro até as preferências alimentares e isso me fez comer melhor, cuidar melhor de mim, não por mim, mas por amor e responsabilidade materna.

Se você está grávida agora, ou planejando engravidar, saiba: você já está moldando gostos, memórias e saúde. Cada escolha no seu prato contribuirá para as preferências, os hábitos e, consequentemente, para a saúde do ser humano que você está formando. Talvez seja este o momento de reprogramar a saúde da família para melhor.

Referências

Mennella, J.A., Jagnow, C.P., & Beauchamp, G.K. (2001). Prenatal and postnatal flavor learning by human infants. Pediatrics, 107(6), e88.

De Cosmi, V., Scaglioni, S., & Agostoni, C. (2017). Early taste experiences and later food choices. Nutrients, 9(2), 107.

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